De Barbosa a Neymar: como craques da Seleção Brasileira foram crucificados pela mídia e por parte da torcida

A história mostra que, no Brasil, derrotas em Copas do Mundo frequentemente transformam grandes ídolos em vilões nacionais

Arte EPB

Por: Mário Luiz - Esporte Press Brasil

A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 reacendeu um velho debate do futebol nacional: a necessidade de encontrar um culpado após cada fracasso. Desta vez, o principal alvo voltou a ser o atacante Neymar, que passou a receber críticas intensas nas redes sociais, programas esportivos e entre parte da torcida.

O cenário, porém, está longe de ser novidade. A história da Seleção Brasileira é marcada por jogadores que, após derrotas em Mundiais, foram transformados em símbolos do fracasso, muitas vezes de forma desproporcional.

 

Moacir Barbosa (Barbosa), goleiro.  Copa do Mundo de 1950 - Foto reprodução/divulgação

 

O caso mais emblemático é o do goleiro Moacir Barbosa. Após a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no episódio conhecido como Maracanazo, Barbosa carregou durante toda a vida a culpa pelo resultado. Décadas depois, ainda lamentava a condenação pública, resumida em uma frase que entrou para a história: "No Brasil, a pena máxima é de 30 anos. Eu paguei a vida inteira." Pesquisadores e historiadores do esporte apontam que Barbosa tornou-se um verdadeiro bode expiatório daquela derrota, apesar de o resultado ter sido consequência de um conjunto de fatores.

Nas décadas seguintes, outros grandes nomes passaram por situações semelhantes.

 

Arthur Antunes Coimbra (Zico'), meio Campo.  Copa do Mundo de 1982 - Foto reprodução/divulgação

 

Em 1982, Zico, considerado um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, recebeu críticas pela eliminação para a Itália, apesar de integrar uma das seleções mais admiradas de todos os tempos.

 

Carlos Caetano Bledorn Verri ('Dunga), volante. - Foto reprodução/divulgação

 

Em 1990, o volante Dunga tornou-se o principal alvo após a eliminação diante da Argentina. O termo "Era Dunga" passou a simbolizar, de maneira pejorativa, um período considerado de futebol pouco brilhante, embora o ex-capitão tenha dado a volta por cima quatro anos depois, levantando a taça da Copa do Mundo de 1994.

 

Cláudio Ibrahim Vaz Leal ('Branco'), lateral esquerdo.  Copa do Mundo de 1994. - Foto reprodução/divulgação

 

Branco: das críticas ao gol histórico que ajudou a trazer o tetra

Nem mesmo a conquista do tetracampeonato em 1994 impediu que alguns jogadores fossem alvos de críticas. O lateral-esquerdo Branco chegou aos Estados Unidos cercado por desconfiança. Aos 30 anos, era considerado por parte da imprensa e dos torcedores um jogador em fim de ciclo e foi bastante questionado por sua condição física e pela concorrência na posição.

Durante a competição, porém, respondeu dentro de campo. Nas quartas de final contra a Holanda, marcou um dos gols mais importantes da campanha ao cobrar uma falta com precisão, garantindo a vitória por 3 a 2 e a classificação brasileira para a semifinal. O lance transformou um atleta antes contestado em um dos heróis daquela conquista.

A trajetória de Branco ilustra como a percepção sobre um jogador pode mudar rapidamente no futebol brasileiro. Em poucos dias, passou de alvo de críticas a personagem decisivo na campanha que culminou com o tetracampeonato mundial, conquistado nos pênaltis diante da Itália.

 

Ronaldo Nazário  (Fenômeno), atacante. Copa do Mundo de 1998. -Foto reprodução/divulgação

 

Nem mesmo gerações vencedoras escaparam das cobranças. Após o fracasso de 1998, Ronaldo Nazário enfrentou inúmeras especulações por causa da convulsão sofrida antes da final contra a França.

 

Ricardo Izecson dos Santos Leite (Kaká), meio campo.  Copa do Mundo 2006 - Foto reprodução/divulgação

 

Adriano Leite Ribeiro (Imperador), Atacante. . Copa do Mundo 2006  - Foto reprodução/divulgação

 

Ronaldo de Assis Moreira (Gaúcho), Meio campo. - Foto reprodução/divulgação

 

Já em 2006, a chamada "Seleção dos Sonhos", formada por estrelas como Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Kaká e Ronaldo, foi duramente criticada após a eliminação para a França nas quartas de final.

 

Neymar Jr ( Atacante) - Foto reprodução/divulgação

 

Na última década, Neymar passou a concentrar praticamente toda a expectativa da Seleção Brasileira. Desde a lesão na Copa de 2014, passando pelas eliminações de 2018, 2022 e agora em 2026, o camisa 10 tornou-se alvo constante de críticas, muitas vezes sendo apontado como único responsável pelos resultados negativos. Ao mesmo tempo, outros torcedores e analistas defendem que a responsabilidade em um esporte coletivo não pode ser atribuída exclusivamente a um atleta.

Ao longo da história, o futebol brasileiro demonstrou uma tendência recorrente de transformar ídolos em vilões após derrotas. A mídia esportiva, impulsionada pelo impacto das manchetes e, mais recentemente, pelas redes sociais, frequentemente amplia esse processo.

Mais do que apontar culpados, os resultados de uma Copa do Mundo refletem fatores como planejamento, trabalho coletivo, decisões técnicas, preparação física e desempenho de toda a equipe.

A trajetória de Barbosa, Dunga, Ronaldo e Neymar evidencia que o futebol brasileiro sempre viveu entre a idolatria e a condenação. A diferença é que, na era digital, os julgamentos acontecem em tempo real, alcançando milhões de pessoas em poucos minutos.

Talvez a maior lição deixada por essa história seja compreender que nenhum jogador vence sozinho — e, da mesma forma, nenhuma derrota pode ser colocada exclusivamente sobre os ombros de um único atleta.

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